Introdução
O ministério pastoral ao longo da história da Igreja vem recebendo influência
das mais diversas conformações tanto políticas como econômicas. Além de se
envolver com o poder dominante, especialmente depois da sua estatização pelo
império romano, também pode se reconhecer marcas negativas das ciências no
pastorado.
As implicações que estas inserções
provocaram no ministério pastoral colocam certas dúvidas, não apenas no âmbito
da ética e da confiança, mas também e pior, na forma como a pessoa humana se
reconhece diante da defesa de inúmeras teorias, que abrem brechas no imaginário
possibilitando a confusão até no mais crédulo cristão.
Em nossa introdução queremos reconhecer o maior desafio da atualidade que
envolve o ministério pastoral, que se deve considerar o mais importante diante
do contexto bíblico. A preocupação do cuidado que Jesus ressaltou que os
apóstolos deram continuidade. A preocupação com o rebanho das ovelhas conforme
era proposto deste o Antigo Testamento, “Procura conhecer o estado das tuas
ovelhas e cuida dos teus rebanhos,” (Pr. 27. 23). A seguir entraremos no tema que
a psicologia sempre tentou responder “Quem é o ser humano?”. Também abordaremos
o assunto relativo ao cuidado pastoral dentro do Antigo e Novo Testamento, e
finalmente vamos considerar os princípios que envolvem o cuidado e o carisma
pastoral.
É sem dúvida que o ministério pastoral contemporâneo continua sendo um
desafio, talvez hoje ainda seja mais sofredor considerando as transformações na
sua observância, as quais produzem uma imagem de descrédito diante da
sociedade.
Alguém postou num site de relacionamentos a foto da frente de uma loja de
comércio de aparelhos de som, com o seguinte anúncio “Não vendemos financiado
para pastores”.
Tão atual deve ser nossa atenção para as expressões de advertência na
carta de Tiago, quando este se refere ao perigo de querer ser mestre movido por
um espírito que demonstra interesse por qualquer outra coisa, senão o cuidado
com o próximo.
O perigo de secularizar o ministério tem envolvido grande parte daqueles
que se chamam pastores, mas cremos que não foram chamados. O objetivo de
gerenciar uma empresa, uma loja ou qualquer outra atividade comercial está mais
próximo da imaginação de certos profissionais do púlpito.
Pessoas que o orgulho, a arrogância e a ganância sufocam a personalidade
de amor, de mansidão, de domínio próprio..., (Gl. 5. 22) não conseguirão cuidar
de ovelhas.
Quem é o ser humano?
A pergunta em questão sempre esteve de forma subjetiva e embaraçadora na
consciência humana. A definição de sua identidade como sua origem, o propósito
da vida e seu fim, ou não, são meandros que desafiam o sofisticado cérebro
humano. E nunca se pesquisou e discutiu tanto esse assunto como nos dias
atuais.
Enquanto se procura por respostas nas ciências evolutivas, e as pesquisas
biológicas reproduzem in vitro, mais se deteriora a origem e a causa humana. E
a vida sendo o bem mais sagrado tem sofrido violentos ataques e julgamentos,
tanto científico como pela exigência na reconfiguração que a sociedade de
mercado a sujeitou.
A modernidade multiplicou a deterioração do humano, porém Brakemeir
considera que a desumanização e a despersonalização sempre foi uma tendência
que torna o sujeito em objeto. Entre as diversas faces da desumanização, a
endemia latino americano expressa verdadeiro cinismo com relação à vida humana.
O discurso não admite, mas a prática confirma (BRAKEMEIER. p. 13, 2002).
O cuidado pastoral numa sociedade
pobre economicamente e reduzida na sua capacidade intelectual, onde muitos têm
sofrido manipulações pelas religiões de mercado prevê um desafio constante e
árduo esforço. Isso primeiramente porque é necessário trazer à luz, as tipologias
de fé idolátricas que contribuem para a continuidade da exploração humana. Segundo,
os danos causados por essa dominação de consciência que coloca o objeto como
locomotiva e o sujeito como vagão, aniquilando o amor e a fé.
O cuidado com a criação é responsabilidade
humana. A imagem de Deus no ser humano é considerada por Brakemeier não como se
pudesse reconhecê-la fisicamente, mas de forma paralela e compreendê-la como
tendo uma função de regente do mundo (BRAKEMEIER. p. 20, 2002).
O exercício da poimênica, que se
traduz no cuidado pastoral, requer que exista no pastor/a o sinal da metanóia. A
mudança da cosmovisão através da experiência da fé em Jesus Cristo, que se revelam
nas conhecidas asseverações quanto ao conhecer as pessoas pelos seus frutos
(atitudes ou ações) devem ser refletida à luz da bíblia.
O amor e a misericórdia de Deus
concedido ao ser humano que transgrediu a si mesmo precisa ser um sentimento a
ser refletido pelo/a pastor/a no seu relacionamento com a comunidade.
Conhecer seus valores e a realidade
das pessoas é o primeiro passo necessário para que exista uma interação mútua.
As pessoas da comunidade, como as que vagueiam procurando um porto seguro
precisam de quem reconheça seus sofrimentos e angústias.
O
cuidado pastoral no Antigo e Novo Testamento.
A terminologia pastor está
relacionada originariamente ao Antigo Testamento, assim também como legada dos
antigos orientais. A atividade mais antiga de sobrevivência era cuidar dos
rebanhos, que os patriarcas de Israel tinham perícia e afeto. A adaptação da
função à liderança política e espiritual tem em Moisés e Davi seus mais
importantes ícones de referência.
A autoridade, ternura e carinho na
relação pastor e ovelha veterotestamentária simbolizam o cuidado de Deus de forma
particular como é demonstrado, por exemplo, na singeleza do Salmo 23. Também é
o Deus pastor que cuida do seu povo simbolizado pelos cordeirinhos (Is. 40.11).
A imagem do bom pastor também é redimensionada ao rei messiânico como
encontrada em diversos textos (Sl. 78.70-72, Ez. 37.24).
O legado do pastor começou a ter nos
responsáveis pela orientação espiritual como profetas e sacerdotes a sua
nomenclatura redefinida como aquele que vai intermediar a relação entre Deus e
os homens (Jr. 2.8, 10.21, 23.1,2).
Não obstante, os pastores -
sacerdotes profetas veterotestamentário vão surgindo da comunidade de fé e a
negligência na relação pastor ovelha começa a aparecer, sendo necessárias
advertências para o cuidado até de forma contundente (Ez. 34).
O advento de Cristo e a formação da
igreja trouxeram uma nova visão do pastorado. Era preciso organizar também a
igreja, e o pastor agora se torna guia, orientador e de certa forma responsável
dentro de uma conjuntura democrática pelo governo eclesiástico (At.14.23), pois
não existia uma relação de dependência política e controle externo.
O princípio no Novo Testamento se
refere ao pastor como um ministério de serviço, diferente de uma atividade
profissional. A parábola do bom pastor (Jo. 10) é o modelo do pastor conforme a
vontade divina, onde o próprio Jesus é o modelo de obra e vida que deve ser a
referência a ser seguida.
A pastoral poimênica está vinculada
a doação da vida por amor dos que estão debaixo do seu cuidado. O bom pastor
sempre se desgastará para cuidar do rebanho como exemplifica Paulo (I Co.
12.15). O pastor é aquele que vai adiante, que tem a coragem de encarar
dificuldades abrindo o caminho e que caminha ao lado vivenciando as preocupações,
angústias e tristezas das pessoas.
Caminhar junto restaurando a alma
através da fé no evangelho e ensinando o amor de Deus para com o ser humano e
toda sua criação espelha a noção do cuidado pastoral no Novo Testamento.
O
cuidado e o carisma pastoral
Jesus legou a sua igreja tudo o que
é necessário para que ela seja o organismo vivo a produzir a ação de Deus junto
ao ser humano dependente de sua restauração física e espiritual. Assim podemos
reconhecer que o carisma ou dons são virtudes que integram a ação pastoral,
tendo seu prolongamento no cuidado com as pessoas.
O exemplo de Jesus o bom pastor, e a
extensão dos dons carismáticos aos apóstolos, são detalhados na carta de Paulo
aos efésios 4 quando são citados alguns dons que a igreja precisava reconhecer
como composição da natureza do Espírito Santo. Esse pano de fundo da aplicação
do carisma no ministério pastoral, sem dúvida é concedido para o
aperfeiçoamento e a unidade, a fim de edificar a igreja (Corpo de Cristo).
Não obstante, o modelo carismático
do cuidado tem em Jesus o seu exemplo essencial. O bom pastor é o que se doa
para edificar o que está em condições adversas. A empatia com os que tem fome,
sede, enfermos, desabrigados, etc. e sua assistência, tem íntima ligação com a
salvação (Mt. 25.31-46). As palavras de Jesus afiançando que a glória de Deus é
inversa à cosmo visão humana está implícita em Mateus 20. 25-28, que reproduz a
imagem do que serve como o maior dentro da dimensão divina.
Jesus não apenas ensinou pelas
palavras, mas testemunhou-as exercendo o carisma de servir com humildade como
no episódio em que se prontificou lavar os pés dos discípulos (Jo. 13.1-17).
Essa atitude iria confrontar o preconceito dos seus discípulos que ainda se
preocupavam em formar sua personalidade sob consideração humana e farisaica, ao
aspirarem um posicionamento dentre si de superioridade (Lc. 9.46).
A atenção carismática de cuidar das
necessidades mais prementes das pessoas é também ressaltada na atuação de Jesus
quando relativiza a instituição confrontando os fariseus em prol desse cuidado.
Entre o guardar o sábado e tratar a
enfermidade do homem que tinha a mão ressequida Ele toma a posição de curar
(Lc. 6. 6, 9,10). Quando os discípulos tinham fome, não se poupou pela tradição
e defendeu-os das críticas porque trabalharam na colheita das espigas no dia de
sábado (Mt. 12.1). Entre apedrejar a mulher adúltera e perdoá-la, Ele fica com
o perdão (Jo. 8) (LIBÃNIO, p. 87).
O ministério carismático ressaltando
o cuidado torna-se uma reflexão importante para a atualidade pastoral, quando o
servir tem ficado em baixa dentro do discurso eclesiástico. Repensarmos o
ministério do ponto de vista pastoral, como servos de Deus que foram
vocacionados para servir é o desafio num contexto globalizado voltado para o
sucesso no conceito humano das estatísticas.
Considerações
finais
Quando se enxerga o pastor nos
moldes atuais, principalmente os que procuram sucesso tendo como estrutura para
se firmarem os acordos que são tratados nos bastidores e portas fechadas de
salas de políticos entre outros, e voltam-se os olhos para as escrituras, não
se esconde a decepção. Paulo asseverava aos judeus legalistas que o nome de
Deus era blasfemado entre os gentios (Rm. 2.24) pela forma equivocada e
perniciosa como reproduziam na prática, os métodos de seu Deus.
Ser um servo de Deus no ministério
pastoral tem um significado que vai além de teorizar o sentido das escrituras.
O ministério pastoral precisa ter empatia com a necessidade do ser humano. Procurar à luz da fé direcionar dúvidas que
bombardeiam diariamente a mente que navega nas informações da ciência e da
cultura. Informações que são retiradas de teorias que, na maioria dos casos não
tem nenhuma base de logicismo para edificar uma fé construtiva tanto pessoal
como coletiva.
A imagem do bom pastor retratada no
Antigo Testamento como oriundo da atividade de sobrevivência vai sendo
direcionado ao líder com responsabilidade de cuidar do povo através do seu
conhecimento e comunhão com Deus. As mensagens proféticas revelam a espera pelo
messias e bom pastor que cuidará das ovelhas de modo a satisfazer suas dúvidas,
sofrimento e angústias.
Assim Jesus se mostra o bom pastor
que ensina com as palavras e o testemunho. A demonstração de servir e cuidar
dos seus discípulos e das pessoas confronta a visão humana de pretensões de
orgulho e egoísmo.
O modelo carismático de cuidado
pastoral tem em Jesus seu amparo e sustentação, e a teoria e a tradição
religiosa, que era o suporte dos fariseus são relativizadas em favor da atenção
e preocupação com as necessidades básicas do ser humano. O nutrir a fome, o
cuidado em curar as enfermidades, a ênfase no perdão ao contrário de condenar aqueles
que eram excluídos do Templo e da sociedade era parte que integrava prioridade
da sua obra.
Portanto, o ministério pastoral que
é abrangente, tem seu modelo exemplar de cuidado com as pessoas o seu foco mais
importante. A ação de amor e misericórdia de Deus deve ser refletida a partir
da salvação concedida na cruz de Jesus. Essa bondade que redundou na graça
misericordiosa é lembrada pelo apóstolo Paulo para os cristãos da igreja de
Roma (Rm. 2.4). Essa bondade pela miséria do ser humano deve ser refletida nos seus
seguidores como marca de verdadeiros cristãos.
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Matrícula 201973
Módulo TEO_EAD 7 2 2013
Polo Itanhaém