segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Uma justificativa para continuar réu do inferno

Jo 3.20 Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem arguidas as suas obras.
Talvez voce já tenha assistido, ou até ouvido quem se auto justifica em não seguir a Cristo acusando certas condutas cristãs negativas. A realidade é que dentro das igrejas estão, na verdade, "elementos" que não deveriam estar la. Porém, isso não é a razão para fugirmos da verdade acusando o segmento social de maior influência na luta pela liberdade, direito e justiça. Entendermos a importância da centralidade da natureza de Deus, e desfazer a centralidade do nosso egoísmo se torna essencial para uma vida sábia, abençoadora, pacífica, e especificamente com uma esperança de salvação, a qual se encontra somente no encontro com Deus.
Bem, porque esses "elementos" que citamos estão lá criando uma imagem negativa da Igreja?.
O próprio Jesus advertiu que isso era possível. Porém, a responsabilidade recai sobre toda a Igreja. Primeiro na liderança, mas também na comunidade como um todo. Na liderança, porque existe o interesse de se locupletar com a manipulação das escrituras, enganando pessoas ingênuas. E estas por sua vez, são manipuladas e ingênuas porque não leem-nas, e aceitam o que o falso profeta prega. Lucas elogiou os que ouviram a pregação do Apóstolo Paulo, porque estes comparavam a mensagem com as escrituras, e assim creram (Atos 17.11).
Olha o que Jesus diz sobre isso:
Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se (Mateus 13:25).
Importante saber que o Inimigo é o diabo, e tem gente achando que qualquer um que fala em Deus é nascido Dele. Este está enganado, na verdade é nascido do diabo, e sua fala e ação vem dele.
João 8.44 Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. (...) Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.
O que fazer?
O ponto de saída encontramos nas palavras de Jesus: (...), o reino dos céus é tomado por esforço...(Mt. 11.12). e ainda em Lucas 23.24 alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os que são salvos? Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu digo que muitos procurarão entrar e não poderão.


Graça e Paz.
Jorge.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

MINISTÉRIO PASTORAL DO CUIDADO Uma visão contemporânea do aconselhamento pastoral






ALVES, Jorge Barreiros. PAULA, Blanches de (Orientadora). Ministério Pastoral do Cuidado: uma visão contemporânea do aconselhamento pastoral, 2014, 38 folhas.  Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharel em Teologia) – Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo.


MINISTÉRIO PASTORAL DO CUIDADO
Uma visão contemporânea do aconselhamento pastoral

RESUMO

O propósito deste trabalho é considerar o ministério do cuidado e o aconselhamento pastoral, com seus princípios fundamentais da igreja no processo de cura, libertação e crescimento. Refletir sobre a influência da mídia na sociedade e sintomas patológicos adquiridos, como a consciência desprovida de ética, incluindo a igreja. Nesse sentido, abordaremos mudanças no discurso religioso que tem forte vínculo com um sistema de mercado, mesclando-se ao sistema capitalista neoliberal, e dessa forma, o cuidado pastoral é prejudicado. Isso contribui com o distanciamento comunitário que se reflete no individualismo oferecido pelo modelo virtual. Abordaremos a importância de considerar a igreja como comunidade terapêutica no modelo bíblico teológico, e o desafio de ser terapêutica usando a mídia televisiva. Com essa visão crítica, vemos a igreja se distanciando da graça oferecida por Jesus que se expande à humanidade no seu objetivo mais nobre de curar, libertar e dar crescimento, pela sedução idolátrica da mídia.

Palavras-chave: Aconselhamento pastoral; mídia; patologias; igreja; comunidade terapêutica.












SUMÁRIO





INTRODUÇÃO....................................................................................................................6

1 PRINCÍPIOS BÁSICOS DO ACONSELHAMENTO PASTORAL................................8

1.1 A empatia ao aconselhar.................................................................................................9

1.2 A importância do ouvir.................................................................................................11

1.3 Cuidados no aconselhamento pastoral..........................................................................13 

1.4 Caminhos para o processo de aconselhamento.............................................................16

1.5 Deus na centralidade do aconselhamento.....................................................................17

2 DESAFIO PASTORAL NUMA SOCIEDADE INFORMATIZADA............................18

2.1 Informatização e riscos de sintomas patológicos..........................................................19

2.2 Eclesiologia informatizada, plural e desafios para o conselheiro.................................21

2.3 Expressões do cuidado em Jesus..................................................................................23

3 A IGREJA COMO COMUNIDADE TERAPÊUTICA..................................................25

3.1 Paradigmas nocivos para sua ordem terapêutica..........................................................26

3.2 A inserção da mídia na sociedade e na igreja...............................................................27

3.3 Como conciliar, mídia e igreja como comunidade terapêutica....................................29

3.4 Cura, libertação e o paradoxo de perder a vida............................................................32 

3.5 A graça se manifesta na ação libertadora da igreja......................................................33 

3.6 Considerações finais....................................................................................................34

BIBLIOGRAFIA...............................................................................................................36









INTRODUÇÃO

Aqueles que se envolverem com a pesquisa temática do aconselhamento pastoral, reconhecerão que no Brasil e América Latina ainda caminhamos lentamente e de modo primário nessa área. Nosso propósito é reconhecer a necessidade de um avanço nos ensinos acadêmicos quanto ao ministério pastoral do cuidado, para que sejam ampliados os enfoques que promovam a cura, a libertação e o crescimento.
A ideia é buscar subsídios que procurem responder a uma sociedade que sofre implicações de um sistema político econômico reconhecido como neoliberalismo latino americano. Um sistema nocivo que fomenta o consumismo, que marginaliza e empobrece que, tem a seu lado a força da tecnologia midiática.
O aconselhamento e o cuidado pastoral se tornam temas expressivos, especialmente quando existe um grande número de pessoas que estão sendo submetidas a essas circunstâncias, os quais são impactados e reproduzem sintomas patológicos.
Portanto, queremos abordar alguns fatores elementares do aconselhamento que tem como base a relação empática.  Escolhemos como título, ministério do “cuidado”, porque a origem da palavra consegue um alcance mais intenso nas relações de ajuda. O cuidado enfatiza não apenas o conselho, mas se refere ao auxílio com envolvimento profundo na relação com o padecente. Preferimos também essa expressão, porque nossa abordagem se revela um tanto crítica quanto ao estilo alienante que a igreja tem oferecido em seu discurso atual. Não obstante, se reconheça que todo o ministério pastoral deveria estar afinado com o serviço de ajuda.
Vivemos uma discutível época de formação de indivíduos imersa num sistema alienante. Esse momento histórico tem uma íntima ligação com a evolução tecnológica e o crescimento econômico das organizações e empresas, as quais utilizam o marketing severo, competitivo e desumano. A mídia é usada de forma inconsequente tirando proveito de uma educação escolar latino americana precária. Ela auxilia a moldar o estilo de vida pelo consumo, e forma compreensões que se tornam verdades.
Isso tem modificado os valores pessoais, e as relações interpessoais sofrem prejuízos. Princípios como dignidade, respeito ao semelhante, bases de justiça, consideração de si mesmo, amor e solidariedade, fundamentam a saúde de uma sociedade. Essas consciências são alguns exemplos de formação que produzem na psique humana o reflexo do divino, que são qualidades com um conteúdo subjetivo produtor da libertação e cura, e que ultimamente vem se perdendo.
O desafio que se estabelece para o ministério pastoral do cuidado atual é grande, pois se reconhece que esse ministério tem sido um exercício não muito desenvolvido no Brasil. A vasta literatura de outros países mostra a atenção e o cuidado que se dá a esse ministério, algo que ainda se requer maior ênfase na cultura cristã brasileira.
A dificuldade de valorizar o aconselhamento pastoral e o cuidado acreditamos serem reflexos originados no processo da colonização, e a forma com que o cristianismo foi inserido no Brasil. Esse mesmo modelo de evangelização se deu também na entrada do protestantismo. A ideia prioritária de estender os limites da instituição religiosa, talvez tenha desprezado de certo modo a relação entre pastor conselheiro e o fiel com seus problemas pessoais.  
Além desses aspectos do aconselhamento pastoral, também vamos tratar do novo momento da igreja. Não é possível tratar aqui os aspectos discriminatórios que a igreja deveria debater com mais ênfase, que entre eles está o desconforto que a mulher ainda sente pelo não reconhecimento da sua vocação pastoral. Assim dedicamos parte desse trabalho reconhecendo a importante ação da mulher no seio da igreja. Para isso, incentivamos a mulher como pastora na nossa narrativa, ora citando “pastora”, e ora “pastor”.
A inserção da mídia na disseminação do evangelho tem caracterizado um novo estilo de culto inovando a igreja. A inovação do discurso tendo a tecnologia como elemento retransmissor, ou seja, ficando no meio dessa relação pessoal tem reproduzido uma mentalidade não muito provida de ética. Assim criou-se um novo desafio para a igreja em suas ações terapêuticas. Portanto, dessa forma vemos desafios para o ministério do cuidado e aconselhamento pastoral que tem a mídia como única forma de comunicação e formação de conceitos e valores.
Portanto, nesse resumido estudo queremos enfocar, a partir desses sintomas, a necessidade da atenção do ministério do aconselhamento pastoral estar, primeiramente a par disso, para assim debater esse momento e exercer o cuidado e o aconselhamento que propicie cura, libertação e crescimento.


1           PRINCÍPIOS BÁSICOS DO ACONSELHAMENTO PASTORAL

            É importante ressaltar, que os fundamentos do cuidado e aconselhamento pastoral são universais em todas as épocas. Mas tão importante é saber como estamos nos relacionando hoje. Percebem-se alterações do imaginário e do comportamento social, que se identifica como patologias, que em grande parte é o resultado da escravização pelas inovações tecnológicas.
            Muitos estudiosos descrevem que as transformações provocadas pelo desenvolvimento científico, se intensificaram no período que teve início na revolução industrial. Porém nas três últimas décadas, tem se verificado um espantoso aumento das novidades tecnológicas na área da comunicação (LARANJEIRA, scholar.google).
             A expansão e inserção da tecnologia da informação, sobretudo com a TV, internet e celulares, tem modificado o panorama mundial nos diversos segmentos da sociedade. A relação trabalho, economia, a urbanidade e a globalização reproduzem novas dimensões de relações pessoais e interpessoais (LARANJEIRA, scholar.google).
            No que tange a igreja, o ministério do cuidado e o aconselhamento pastoral tem se tornado importante dentro dessa discussão. Novas patologias tem sido diagnosticadas. Por isso tomamos por necessidade rever os principais fundamentos para agir nessa direção.
            O que nos interessa neste ensaio é olhar para a cura, libertação e crescimento através do ministério do cuidado e aconselhamento, especialmente porque grande parte da sociedade tem usado a tecnologia de forma até perigosa. Dentre alguns casos, reconhecemos a dependência de crianças e adolescentes que não conseguem disciplinar o tempo, se tornando escravos da tecnologia da informação e comunicação.
A falta de justiça social também tem íntima conexão com frustrações nos diversos campos da vida e dos relacionamentos. A administração pública do país tem assistido um constrangimento social devido denúncias de pessoas como senadores, secretários de governo, e políticos em geral que se envolveram em vários escândalos (CHAIA; TEIXEIRA, 2001, scholar.google).
Também não é oculto que correntes cristãs, quando deveriam direcionar pessoas à reconciliação com Deus, na verdade afastam-na por meio de uma teologia que não testemunha essa graça. O ministério pastoral ao usar métodos que exploram, pode reproduzir danos pessoais como desencanto, descrédito na religião e no pastor, desequilíbrio familiar entre outros (BATISTA, 2005, p. 226). Sobre tais aspectos voltaremos a abordar com mais detalhes no segundo capítulo.
Portanto, o aconselhamento pastoral é intrínseco ao cuidado em todas as áreas da vida. Para que se possibilite um eficiente exercício no auxílio daquele que sofre, é evidente que o pastor e a pastora são expostos numa dimensão que requer o carisma do maior dom divino, o amor pela restauração da vida.
Esse amor curador que abrange a integralidade do ser humano possibilita tratamento e reparação das patologias do corpo e da alma. A experiência do aconselhador cristão nessa dimensão é significativa quanto à exigente exortação de Jesus do “nascer de novo” para Nicodemus, um bem conceituado fariseu (Jo. 3).
Quando o aconselhador pastor utiliza os dons da graça e do amor de Cristo, que são inseridos no “novo nascimento”, aumenta-se as possibilidades de cura e libertação.  A ação capacitada pelo Espírito Santo auxilia o ferido superar as graves situações de sofrimento, que entre muitos casos, se reconhece a falta de uma relação harmoniosa com Deus.
O conselheiro cristão pode contar com um apoio diferenciado. Ele confia na assistência do Todo poderoso, que sempre está ao lado.
Portanto, o diálogo com o conselheiro pastor pode ajudar na mudança de um sintoma que está produzindo sofrimento na pessoa. E o modelo dessa comunicação se torna eficiente ou não, dependendo da forma como isso se estabelece.


1.1 A empatia ao aconselhar
                                                            O “próximo” não é aquele que eu “amo”.
  É todo ser que passa perto mim.
                                                      Edith Stein*

A comunicação empática no ministério pastoral deve ser um componente essencial. No que tange ao princípio do ser humano como comunidade, este não consegue viver satisfatoriamente só. E as formas de comunicação determinam valores de dignidade e harmonia entre eles.
      Essa virtude nas relações exige mudança do conceito humano narcisista. É necessário compreender que somos a extensão do outro, e encontramos o que nos falta dentro dessa perspectiva. Deve-se compreender que somos o que somos porque vivemos na dependência direta ou indireta do outro e da outra.
No caso da pastora, o chamado e a vocação santa pelos princípios bíblicos, demarcam uma relação que é revelada no amor de Cristo. Esse aspecto é importante e será a base que sustentará a comunicação de auxílio ao que padece.
Não obstante, o tratamento tanto no campo pastoral como nas áreas técnicas da assistência social exigem a virtude vocacional, mas da pastora conselheira sempre se espera que esse amor que é natural do nascimento em Cristo, faça a diferença entre uma simples empatia profissional.
A empatia abrange o relacionamento interativo onde a comunicação verbal e não verbal agem de modo a possibilitar compreensão do que está acontecendo com o outro. A empatia conforme Bergman é a capacidade de interpretar uma variedade de sentimentos como alegria, júbilo, satisfação e confiança, assim como raiva e medo. A pessoa que tem capacidade de manifestar empatia tem sua mente aberta e não julga as pessoas (BERGMAN, 2006, p. 73).
Bergman também aponta um dos maiores psicólogos do século XX, Carl Rogers que desenvolveu a “Terapia Centrada no cliente” que entende a empatia como elemento básico dos relacionamentos terapêuticos. Na teoria da cura de Rogers é necessário existir a manifestação da empatia incondicional e o calor humano do terapeuta (BERGMAN, 2006, p.76).
Portanto, a empatia no cuidado pastoral não significa cuidar apenas de forma amigável, ou procurar técnicas que se limitem apenas a um vínculo de cuidado profissional. Embora a técnica não seja descartada, e o profissionalismo exige a existência dela para que o cliente sinta-se a vontade no diálogo terapêutico. Entretanto, da aconselhadora cristã, o padecente espera uma relação de extrema confiança para entregar sua aflição, que às vezes estão além do limite profissional.
Uma grande parte daqueles que buscam cura de sua aflição no aconselhamento da pastora, terão um sentimento propenso à necessidade de preencher aquele vazio que ainda não conseguiu ser suprido na sua relação com Deus. Esse aspecto é relevante e diferencia a relação entre o profissionalismo formal e o cuidado através do aconselhamento pastoral cristão.      
Isso não significa descartar o profissionalismo organizacional, didático e ético da pastora, que a caracteriza como capacitada e responsável para a função. O que se propõe aqui é definir bem o motivo que vocaciona o cristão conselheiro.
O profissionalismo ético da pastora, aliás, deve ser um dos fatores de recomendação e crédito para que a pessoa em aflição, e que passa por momento de dependência afetiva, não corra o risco de ser vilipendiado e quem sabe até abusado. Para uma leitura analítica desse assunto, recomendamos o livro de Richard M. Gula, “Ética no Ministério Pastoral”.
A falta dessa ética profissional pode levar, conforme Gula, a uma mentalidade individualista de “vocacionado por Deus” possibilitando uma religiosidade empobrecida de responsabilidade (GULA. 2001 p. 19,20).
A relação empática que tem sido estudada e desenvolvida nos últimos cinqüenta anos cientificamente, tem se intensificado na inclusão dos métodos profissionais da área médica, e indo além da psicologia até ao clínico geral. Essa comunicação faz parte do conteúdo do evangelho genuíno, que anuncia o poder libertador e curador pela palavra.
 Bergman ainda descreve que a empatia é uma graça, e significa a salvação da humanidade, sem ela não existiria nenhum tipo de comunidade, nem famílias e nenhuma chance de sobrevivência (BERGMAN, 2006, p. 76).
A empatia na aconselhadora pastoral cristã requer a disposição de superar o profissionalismo formal, sendo sensível ao problema enfrentado pela aconselhanda. Colocar-se na posição de dor e sofrimento do/a outro/a e manifestar um intenso desejo pela restauração dos sentimentos integrais da pessoa reestruturando sua relação com Deus.
A pastora necessariamente deve manifestar o relacionamento empático no seu exercício de reconduzir a pessoa a um estado de paz consigo mesmo e com Deus.

1.2 A importância do ouvir
Uma forte tendência do aconselhador é querer resolver o problema de forma rápida, e quando isso ocorre, existe precipitação nas palavras que acabam prejudicando a comunicação. Atualmente, quando o tempo tem se tornado quase um adversário do ser humano, a capacidade de aprender a ter paciência é indispensável no processo do aconselhamento pastoral.
            Aprender a ouvir, e em casos específicos, ouvir mais que falar torna-se essencial. O conselheiro eficiente deve ouvir com empatia e constante atenção. Jagnow afirma que somente uma pessoa tem os argumentos necessários para que o conselheiro saiba o que vai cuidar, e esses argumentos quem tem é o aconselhando. Além disso, o pastor aconselhador precisa ouvir palavras que não são proferidas, os sentimentos e as lágrimas através do “ouvir com o coração” (JAGNOW, 2003, p. 74,78).
Todas as pessoas que estão passando por uma situação de desconforto querem alguém que dê atenção para sua aflição. Esse princípio é recorrente em todos nós. Queremos que saibam o que está nos afligindo.  A dor pode ser minimizada. Em todas as ocorrências da nossa vida, e principalmente nos problemas emocionais, a comunicação é o meio de que nos apropriamos para atender aquilo que sentimos. E ter alguém que se torne companheiro de escuta é importante para o controle dessa aflição.
 Assim como Deus se apresenta e ouve com paciência o clamor e a súplica do aflito, o conselheiro cristão deve revelar essa paciência ao ouvir, a fim de auxiliar, de estar presente na aflição do aconselhando: “Ouve, SENHOR, e tem compaixão de mim; sê tu, SENHOR, o meu auxílio”. (Sl. 30.10).
Essa expressão do salmista é uma declaração que mostra uma das veredas do cristão. A compaixão e o auxílio sempre serão acompanhados da atenção misericordiosa de Deus. Ele sempre está pronto para ouvir e socorrer o aflito quando este o procura com um coração quebrantado.
No aconselhamento pastoral, o ouvir empático segundo Jagnow, constitui uma atitude indispensável de cuidado com as pessoas. Ao se colocar no lugar do aconselhado ele consegue “responder” através do ouvir com paciência sua história, encorajando-o com isso a expor com confiança o seu problema (JAGNOW, P.79, 2003).
Existem ocasiões específicas que é impossível uma resposta ou argumento que resolva o problema. Circunstâncias que superam a fragilidade e finitude humana devem ser acompanhadas muitas vezes com maior capacidade de ouvir. Quando alguém se encontra nos momentos finais da vida, em lutos traumáticos, por exemplo, as palavras precisam ser comedidas, e às vezes elas não ajudam muito.
O que é de suma importância nessas ocasiões é a presença do conselheiro cristão, que representa a esperança de um Deus que escuta a aflição, mesmo que seja a mais dolorosa. Isso ajuda a preencher o sentimento de perda e vazio que se passa.
Clinebell cita um texto altamente expressivo de Dietrich Bonhoeffer que afirma:
 
São muitas as pessoas a procura de um ouvido que as ouça. Elas não o encontram entre os cristãos, porque eles falam quando deveriam ouvir. Quem não mais ouve seu irmão (ou irmã), em breve também não mais ouvirá a Deus. (...). Quem não consegue ouvir demorada e pacientemente, estará apenas conversando à toa, e nunca estará realmente falando com os outros, embora não esteja consciente disso.
(CLINEBELL, APUD BONHOEFFER, 1959, pp. 97-98).

Um dos episódios que marcou e amadureceu Clinebell em sua experiente carreira de conselheiro, foi quando visitou uma senhora no leito do hospital, à beira da morte. Já vinha sofrendo há mais de vinte anos naquele hospital, e os dois estavam certos que a morte era evidente. E antes de qualquer intenção de consolo, a enferma lhe dirigiu a seguinte afirmativa: “Pastor, eu ficarei muito contente em sair deste maldito lugar”. O que Clinebell aprendeu conforme suas próprias descrições é que, não existia nenhuma palavra que fosse importante naquele momento (CLINEBELL, 1987, p. 73).
Portanto, o ouvir para reconhecer o que aflige o aconselhando precisa ser acompanhado da compaixão que também é um valor cristão.
Reconhece-se que o aconselhamento pastoral, dentro dessa perspectiva de relação empática do ouvir é, portanto, realizado por meio da comunicação verbal e não verbal.

1.3 Cuidados no aconselhamento pastoral                                                     
O relacionamento de empatia no aconselhamento pastoral requer um forte sentimento de confiança entre a pastora conselheira e a aconselhanda. Assim como essa empatia é necessária, e se torna importante para ajudar quem está passando por um transtorno psíquico ou emocional, também se torna necessário ter um sentido crítico de precaução com a pessoa que vai ser aconselhadora.
A importância de confiar na pessoa que se pede aconselhamento é necessária. Em especial hoje, quando muitos grupos religiosos estão aparecendo, e alguns com fins econômicos acima dos valores do amor fraterno (BATISTA, 2005, p. 108).
Existe atualmente enorme importância de reconhecer na aconselhadora a ética de ter uma vida transformada pelo Espírito de Deus. Essa ética se prova no dia a dia na vida daquela que tem amor, paciência, fidelidade, mansidão, paz, longanimidade, conforme Paulo caracteriza em Gálatas 5.22. Estes são alguns dos principais aspectos confiáveis.
Conforme a visão de Gula, a confiabilidade é uma virtude que engloba uma gama de outras virtudes, entre tantas outras ele cita a lealdade, fidelidade, honestidade, justiça e humildade. O ministério pastoral tem que ser confiável, inclusive para que a igreja seja reconhecida como elemento que testemunha e manifesta a pureza de Cristo. 
Gula ainda cita alguns itens que podem comprovar como uma pastora conselheira pode ser aprovada na confiabilidade para exercer o aconselhamento pastoral face a face:
·         Respeitar os limites físicos e emocionais no relacionamento e confiar adequadamente nos próprios sentimentos e ser prudente ao expressar-se.
·         Guardar informações confidenciais.
·         Cumprir obrigações e compromissos ante a comunidade, ante a família, ante aos alunos, etc.
·         Servir sem discriminação.
·         Dar preferência aos interesses dos outros a seus interesses pessoais.
·         Partilhar seus recursos, habilidade e tempo.
·         Preocupar-se e agir a favor da justiça, etc. (GULA, 2001, p.61).
            A capacidade intrínseca de cuidar de forma altruísta, paralelamente à respeitabilidade dos limites pessoais e circunstanciais entre aconselhadora e aconselhanda, é significativa. Dessa forma, o aconselhamento será um elemento de importante ajuda para com os problemas que uma comunidade está sujeita.
           Não obstante, é preciso entender que somente a legalização e aprovação de uma instituição religiosa como igreja pelos órgãos públicos e a sociedade, não garante uma relação de respeito mútuo entre seus fiéis. Exemplos como os gravíssimos abusos que os padres e pastores praticaram, principalmente contra crianças e adolescentes, só foram colocados ao conhecimento público devido a denúncias de grande extensão (www.ihu.unisinos.br).
A conjuntura desafiadora que a igreja católica passa, por exemplo, propicia descrédito e banalização da fé. Embora já tenha iniciado enfrentamento dentro dela mesmo para tentar solucionar o problema, porém muitas famílias foram afetadas pela conduta inépcia de clérigos (www.ihu.unisinos.br).
Essa dificuldade também envolve outros ramos eclesiásticos. Não é raro pastores abusarem de sua posição de liderança, para praticarem relações sexuais ilícitas e danosas (COZZENS, 2004, p. 165). Portanto, a aconselhanda deve depositar sua confiança aliada à postura ética da pastora que corrobora os conselhos de Jesus.  Contra os falsos profetas ele diz: “Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? (Mt. 7.16).
Outra dimensão indispensável para o cuidado pastoral no aconselhamento é o tipo de leitura que é feita das escrituras. A leitura fragmentada de textos sem respaldo hermenêutico de todo contexto bíblico, como a obediência àqueles que devem velar pelas vossas almas (Hb. 13.17), ou ainda a conhecida concepção de “ungido do Senhor” como alguém inquestionável, tem propiciado comportamentos prejudiciais dentro de igrejas, pela falta de atenção e crítica.
O modo de elevar algum discípulo à liderança se retrata num dos preceitos cruciais das escrituras. Estes conforme Paulo, deve ser provado pelas muitas experiências, não apenas porque falam em nome de Deus, mas também dentro da ética e moral humana (conf. 2Co. 8 e Fp. 2. 22,25).
 A incongruência no falar e agir não tem sido assunto de questionamentos e críticas de auxílio para formação de pastoras, e ainda pior: o comportamento de líderes religiosos que causam danos morais, na maioria dos casos tem seus interesses protegidos pela instituição a que pertencem. Esses fatos desestabilizam a igreja e ameaçam a fé como a conhecemos (COZZENS, 2004, p. 13,14).

1.4  Caminhos para o processo de aconselhamento
            O aconselhador pastor ao exercer a escuta dos problemas do aconselhando, poderá devido  à tendência  natural, absorver e vivenciar como uma “esponja” a situação que irá se envolver. A sabedoria de tratar com os casos são de extrema importância.
Esse risco de sofrer com o problema como se fosse seu, possibilita criar patologias como estresse, desorganização e depressões, entre outros, além de prejudicar o desenvolvimento do aconselhando.
            Clinebell nos ajuda a entender isso destacando que nessa relação empática de apoio, o aconselhador corre o perigo de querer carregar o aconselhando fazendo aquilo que este poderia fazer por si próprio. Essa tendência é normal daquele que se sente sem forças para avançar. Porém é exatamente esse esforço que ele necessita para conseguir avanço e crescimento. Caso ocorra dependência no aconselhando acontecerá um sentimento que transforma o aconselhador como se fosse uma “muleta” (CLINEBELL, p. 176, 2011).  
O aconselhamento pastoral não significa resolver os problemas enfrentados pela pessoa. Por exemplo: em casos de patologias depressivas relacionadas a perdas, o conselheiro tem a função de orientar o aconselhando a encontrar sentido para o momento que está passando.
            Não existe uma regra matemática para o aconselhamento, e os sintomas patológicos pessoais são diferentes em cada um, mas é possível estabelecer métodos de apoio em situações como de luto, enfermidades, drogas, distúrbio no casamento, perda de emprego, que são reconhecidos como os principais problemas patológicos. Um excelente arquivo de métodos é possível encontrar no livro de Clinebell.
            Entretanto, é possível reinterpretar os problemas de forma a conviver com eles superando o sofrimento. Jagnow considera importante fazer a pessoa compreender a sua história, como suas deficiências, emoções, crenças e capacidades. O autoconhecimento tem o significado de ver-se como Deus em Cristo vê cada ser humano, ou seja, aprender a viver como uma pessoa amada por Deus através de Jesus Cristo (JAGNOW, 2003, p. 21).


1.5  Deus na centralidade do aconselhamento.
O aconselhamento e tratamento terapêutico seculares tem  um pano  de  fundo,  que
utiliza métodos específicos da psicologia. A evolução da neurociência tem ajudado no direcionamento das pessoas a viverem melhor neste mundo A terapia com enfoque na espiritualidade também se aplica no aconselhamento psicológico, porém o pastor conselheiro tem uma função bem distinta, a partir da sua experiência e visão bíblica.
            As últimas recomendações de Jesus aos seus discípulos se estendem aos pastores de forma universal e temporal.  O ensino para “guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt. 28.20) alcança a compreensão do estado de pecado do ser humano (Jo. 16.8), a necessidade de arrependimento (Mt. 4.17), que estão interligados com o anúncio da morte de Cristo no lugar do ser humano (Mt. 20.28) concedendo a reconciliação (Rm. 5.1) através do cancelamento dos pecados (At. 3.19) e a vida eterna (Jo. 3.16).
            Muitas pessoas procuram uma direção espiritual para “salvar” algo que não está dando certo como casamento, trabalho. E se esse motivo estiver acima da submissão à obediência em fé a Deus, o trabalho se arrastará com dificuldades, mas o pastor conselheiro deve dar a direção para a transformação, e estabelecer o crescimento no relacionamento com o Senhor (CANNOLLY, 1999, p. 151).
As descrições do aconselhamento cristão por Collins devem estar propensas ao discipulado, onde o conselheiro deve usar a Bíblia como ponto de partida. Reconhecer que Deus se expressa ao ser humano através dela, e revelam-se por ela as grandes verdades do universo, inclusive as ciências que ajudam, como a psicologia. Portanto, todos os métodos que são utilizados de forma científica, e a capacidade do conselheiro em suas diversas formas de abordagens devem ter sustentação na Palavra de Deus (COLLINS, 1990).
A dogmática confessional da fé cristã, de certa forma, tem sido vilipendiada como constatamos nas diversas descrições pesquisadas, que reconhecem as mudanças sociais como fatores reprodutoras de pensamentos e valores. Não obstante, ela é o princípio e o fim de todas as coisas. É por meio dela que a vida em abundância se torna realidade.
            As afirmações de Jesus quanto à vida de abundância em Lucas 12.15 e João 10.10 estão em paradoxo absoluto. Reconhecer que os valores instados por Jesus, e reconhecê-lo como Senhor está acima de qualquer diagnóstico. O pastor conselheiro deve direcionar o ferido para encontrar a realização da vida no Senhor e Criador de todas as coisas.


2          DESAFIOS PARA O ACONSELHAMENTO PASTORAL NUMA SOCIEDADE CAPITALISTA INFORMATIZADA.
           
            Uma expectativa incômoda faz parte do cotidiano das pessoas deste século XXI. As grandes descobertas científicas e a revolução tecnológica, não traduzem para o ser humano nenhuma condição que possa equilibrar seu corpo e sua mente. Na verdade o que acontece é o contrário, conforme Brakemeier, o conhecimento, o ensino e a cultura não significaram mudanças para uma boa consciência (BRAKEMEIER, 2002, p. 11).
            As enfermidades acometem cada vez um número maior de pessoas, as piores doenças como o câncer atingem um nível estarrecedor na escala de alcance, tanto numérico como nas várias faixas etárias. Alguma coisa incomum até algumas décadas atrás.
            A insatisfação e medo pelo obscuro futuro do planeta, que se verifica através da destruição do meio ambiente constatado pelo recuo de todos os recursos naturais e o aumento dos resíduos tóxicos e poluentes são reais.
            O estado de aflição inconsciente são implicações do sistema hostil que as pessoas vivenciam. A disputa pelo primeiro posto de “mais rico” quer seja na cidade, no país ou no “planeta” pode começar a qualquer momento. A corrida que esquece quem está atrás, e “vencer” ou ter “sucesso” no sistema capitalista, excludente, significa deixar alguém para trás, não se importando com a poeira que sufoca e mata os que sobram.
            A sociedade que ficou cega dos bons valores e elegeu a idolátrica vida gananciosa e desesperado consumismo, se fez refém do sistema dos meios de comunicação de massa, e acaba pagando um preço que não pode ser medido por cifras.
            A explosão da tecnologia da informação e as constantes inovações ajudam, segundo Brakemeier, o ser humano conhecer mais da sua antropologia, porém esse conhecimento tem evidenciado uma grande confusão, pois quanto mais ele sabe corre o risco de, na verdade, saber menos (BRAKEMEIER. 2002, p.7).
            O importante significado da relação com o transcendental, onde Deus sempre foi posto como soberano criador que criava a base da identidade do ser humano, da sua origem e fim, se tornou mera especulação. Nesse sentido, Brakemeier sustenta a visão da salvação, da mística do céu e inferno como algo ultrapassado, onde o que importa é o que ocorre hoje e não amanhã. Assim também a mensagem evangélica requer mudanças. Princípios de
esperança foram abolidos pelos princípios do consumismo. O viver por opções momentâneas ocupou a mente e potencializou o homem (BRAKEMEIER, 2002, p, 201).


            2.1 Informatização e riscos de sintomas patológicos.
            Como se nota, as transformações sociais decorrentes da revolução industrial tiveram novas tecnologias e hoje suas ferramentas, como a internet, tornaram-se indispensáveis. As últimas décadas do século passado e as rápidas mudanças, deram nova forma à comunicação trazendo transformações no cenário mundial, auxiliando as demandas da globalização.
            O entusiasmo da revolução industrial, já no final do século XIX começava a dar lugar à preocupação com a cara da nova sociedade. A competição econômica entre as nações propiciaram novas demandas com a crescente demografia marginalizada. O sistema da vida moderna de trabalho nas fábricas vai desenvolver enfermidades e patologias (PITANGA, 2002, p, 50).
            As mutações que o momento digital impõe ao novo modelo de trabalho, reconfigurando o modelo fabril pelas horas diante da tela e do teclado do computador trouxeram benefícios. Porém não se deve ignorar que mudanças nas atividades cotidianas e rotineiras produzem novos paradigmas no mundo do trabalho, que carecem de atenção (LARANJEIRA, scholar.books).
Não é sem dúvida que o consumo é o protagonista do contexto atual. Induzidos pelo desejo de satisfazer seu ego, o mercado aproveita-se de uma velha fórmula mágica de administrar a mente dos seres humanos. A conhecida propaganda utiliza os veículos midiáticos para criar a cada dia um marketing mais sedutor, o melhor meio de negócio já visto.
Com isso se verifica novos comportamentos sociais. As crianças estão se tornando adultas precoces devido à exigência do substrato econômico capitalista. Elas estão se vestindo como adultas, seus brinquedos já não são os mesmos, assim como suas brincadeiras se modificaram, os incidentes fatais também cresceram entre elas. Os pais de classe média se preocupam com sua inserção no campo de trabalho. Pai e mãe dispõem de pouco tempo com os filhos por conta do horário extenso de trabalho, e a necessidade de aumento da renda familiar (CAMPOS e SOUZA. 2003, p, 13).
A partir da análise dessa mutação sociológica se reconhece uma educação dificultada que se traduz num adulto com valores também infantilizados. O relacionamento entre um adulto, criança e adolescentes se tornaram difíceis, como descreve Cristina Campos, pois a mídia eletrônica não deixa espaço de educação ou vergonha. A mídia como a televisão toma esse lugar expondo todos os segredos rompendo a linha que divide a infância e o adulto (CAMPOS e SOUZA. 2003, p,13).
Não obstante, as mudanças sociais foram alavancadas com a explosão e o sucesso do computador e da internet. As demandas econômicas da nova sociedade globalizada proporcionaram através das redes de comunicação avanço na supremacia de liberdade do indivíduo. A flexibilidade de tarefas e comunicação em rede ajuda a redemocratização, conforme Castells, porém a sociedade formada pela “rede de comunicação mundial” é digna de receber questionamentos quanto à colisão com a cultura. (CASTELLS, 1999, p.8), especialmente quanto à autoridade hierárquica.
            O momento que delimitam adultos e uma nova geração, que nasce dentro de uma visão de liberdade absoluta, tem provocado distúrbios em sociedades como a brasileira. Uma civilização com educação precária e com enormes desigualdades sociais faz, por exemplo, que pais presenteiem os filhos com a internet, mas nem sabem como lidar com o computador, não interagindo com eles possibilitam graves problemas de relação e conduta.
            Essa espécie de alienação se retrata na pulverização da estrutura da instituição familiar. O fato das crianças nascerem aptas ao consumo tecnológico cria-se uma falsa consciência nos pais que elas estão preparadas e livres de controle disciplinar.
            A promessa de sermos iguais e libertos está embutida no marketing do consumo. Mas na verdade o mercado escolhe um grupo seleto e uma classe marginalizada vai se criando.  Criou-se o mito do novo, assim a mídia leva a cabo o cuidado de modelar a consciência de crianças e adultos para a compra do que está na moda, do que é novo. Sabe-se então, que aquilo que já nos pertence perdeu seu valor, e estamos aptos a comprar novamente, porque não tem nada que possa acalmar e dar satisfação ao obcecado consumidor (CAMPOS e SOUZA. 2003, p, 15).
            A vida tem sido configurada numa cultura consumista, e a televisão tem ensinado que tudo pode ser vendido e comprado, que tudo tem seu valor comercial.
             A presença constante da televisão no lar, e todos acomodados ao seu redor, faz dela o modelo de perfeição. Ela é a principal fonte de formação da cultura, porque se acredita na propaganda de que a vida não tem beleza sem aqueles produtos (CASHMORE, 1998, p. 16).


            2.2 Eclesiologia informatizada, plural e desafios para o conselheiro.

            A análise do comportamento social contemporâneo tem evidenciado novos fenômenos patológicos. E a igreja não se exclui desse contexto. A atração pela comunicação midiática possibilitou, por exemplo, o crescimento numérico de fiéis, mas também requer análise das mudanças que se notam nas suas novas expressões litúrgicas.
            A preocupação não é mais em convencer através do conhecimento, mas se dá pela tentativa de sedução emotiva, em especial, conta-se com o auxílio das imagens. Com a atração pelo estrelato e o consumo a partir da criação da indústria de produtos, criou-se um mercado eclesiástico e a pluralização do discurso religioso (RAMOS, 2006, p. 125).
            O aconselhamento pastoral tem sua fonte originária na tradição judaica. Os profetas foram aqueles que enxergaram no interior da religião patologias decorrentes das transformações sociais quando a exploração, pobreza e enfermidades foram os fatores de desagregação. As promessas de bênçãos no começo da formação do povo israelita se reinterpretaram ao longo de um processo de tradição em que a exploração humana e exclusão social se tornaram verdades absolutas (KONINGS, 2005, p. 209).
            Conhecer a história e a relação do povo israelita, e as verdades do Deus de amor, se revestem de importância para hoje, e serve como exemplo para compreender os princípios que estabelecem uma convivência com dignidade. Entretanto, ideologias com estratégias egoístas, constroem um modelo de cristão descompromissado com esses valores.
            Um dos maiores desafios para a atual pastora conselheira começa quando não existe uma convivência comunitária. A inserção da mídia na igreja tem produzido afastamento das pessoas, e seus problemas também ficam marginalizados. “Procura conhecer o estado das tuas ovelhas e cuida dos teus rebanhos” (Pr. 27.23).
            Esse interesse e cuidado com o outro, tem se prejudicado com a inserção da mídia, Com a adoção do capitalismo inserida de forma descuidada (ou não) no seio das igrejas, embora as expressões neopentecostais alavancassem e dessem calor ao desejo humano de sucesso, as expressões tradicionais com vínculo reformado de certa forma, até para tentar equilibrar o crescimento das novas igrejas, também adicionaram uma linguagem capitalista, excludente e alienada do estado em que os fiéis passam.


            A inconsequente sedução pela mídia se comprova pelas avaliações de Magali do Nascimento Cunha, ao descrever o sucesso, fama e dinheiro que indivíduos, organizações empresariais conseguiram com a implantação de uma pseudo ética cristã. A comunicação
onde existe um veículo impossibilitando a resposta como a televisão, reproduz individualismo, privatiza a vida coletiva e segrega (CUNHA. 2007, p, 65).
 Portanto, o sofrimento vivenciado pelo fiel que só pode ser tratado no “face a face”, no toque e no sentir a vida pulsando através de um abraço desafia o novo aconselhador cristão.
            Cuidar de uma pessoa não está mais no estigma da consciência plural e quantitativa, essa graça vem se esvaindo. É na relação comunitária, que a virtude afetiva transparece, e é o fator preponderante para que os problemas pessoais sejam reconhecidos e tratados. Essa relação tem sido abolida quando existe um elemento que impede o sentir a aflição do outro.
            Os grandes palcos com holofotes e perfis luxuosos, encenam o show religioso e pregam o fascínio do estrelato, onde o verdadeiro amor ao próximo fica estagnado nos ecos das evocações de bênçãos e sucessos reproduzidos pelas telas frias da televisão. Anseios que não são sequer ouvidos, perguntas que não são respondidas ficam amargurando o coração do fiel que se pergunta, “como posso estar doente se sou um fiel?”, “como posso perder, se o cristão só tem sucesso?”
            A formação do modelo de cristão de sucesso nas finanças e na saúde contraria a realidade humana, construindo uma fé vazia de experiência cotidiana e argumentação bíblica. O Apóstolo Paulo descreve aos coríntios que tinha um espinho na carne, que se compreende como uma enfermidade, porém nas suas orações a resposta de Deus foi suficiente para compreender sua limitação humana (1Co. 12. 7,9).
            Todas as pessoas de fé conviveram com sofrimentos diversos, para que o amor de Deus fosse revelado na humanidade, em forma de serviço (2Co. 12.15), aconselhando (Fp. 3.3), enfermados (2Re. 13.14), perseguidos (Mt. 5.10), atribulados (2Ts. 1.7) entre outros.
            No entanto a mídia de massas constrói novas compreensões como se nota na revolução gospel, que hoje se conhece como cultura gospel. Conforme Magali Cunha, a idéia de uma cultura de massas, se construiu através da compreensão de que existe um conjunto de objetos que são produzidos para o consumo das massas. Esses objetos são introduzidos na sociedade e são consumidos de forma indiscriminada. Dessa forma, a sociedade fica subordinada à indústria cultural, pelo consumo de produtos com fins comerciais ou ideológicos (CUNHA, 2007, p. 19).
            O pastor que tem sua ideologia cristã com um viés de sucesso e vida de benção, que se reproduz pela mídia, tem um grande desafio: conhecer o rebanho e cuidar das ovelhas.

            2.3 Expressões do cuidado em Jesus.
            Luis Carlos Ramos descreve o caráter homilético de Jesus em se comparando com a midiática, lembra que suas palavras tinham em primeiro lugar autoridade e diferia dos discursos normais da época (RAMOS. 2005 p.37). “Quando Jesus acabou de proferir estas palavras, estavam as multidões maravilhadas da sua doutrina; porque ele as ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas (Mt. 7.28,29).
A autoridade de Jesus era delegada pelo Pai (Mt. 28.18), e era fundamentada na obediência aos valores do Reino do Pai. Diferentemente dos fariseus escribas, sua pregação era acompanhada pelo interesse de cuidado com seus ouvintes (RAMOS, 2005, p. 40).
 Sua opção por uma vida simples rejeitando louvor e bajulação era parte essencial do modelo que o caracterizava como aquele que se aproximava e se preocupava com as aflições dessa gente.
 Embora sua pregação tivesse alcance em todos os extratos sociais da época, no entanto teve prioridade na ternura e cuidado por pessoas pobres, enfermos, e pessoas simples. A sua atenção sempre se estendia para com as pessoas rejeitadas e excluídas da sociedade político religiosa.
            Jesus falava de modo fácil, mas não recusava palavras de sabedoria e inteligência nas suas mensagens, conforme Ramos usava recursos imagéticos, figura de linguagem, metáfora, cenografia, possibilidades acústicas, linguagem corporal, seu estilo, no entanto tinha um caráter ético muito mais que artístico e estético, que demonstrava, entre outras virtudes, graça, piedade, prudência, justiça, humildade e tolerância, (RAMOS. 2005, p, 37-41).
            A obra de Jesus teve seu prolongamento na formação da comunidade primitiva, que mostrou uma forte convivência igualitária nas circunstâncias opressoras da época (At. 2.42-47). E tinha conforme Ramos, pregadores como Pedro, com característica de uma pessoa simples e sem educação formal, mas também Paulo, ao contrário, poderia se conceituar como erudito (RAMOS, 2005, p, 42). Paulo, inclusive mostrou seu grande amor pelo evangelho, onde se inclui o cuidado à comunidade, a ponto de várias vezes relatar desprezo por valores ou comportamentos que poderiam trazer  consequências prejudiciais a essas pessoas (2Co. 12.15; 2Co. 11,9; Fp. 3.8). Esse exemplo foi seguido por outros, que se colocaram na posição de serviçais na pregação do evangelho.
            Esse pressuposto deve fundamentar a prática do aconselhamento. A Aconselhadora pastora na sua abordagem tem uma linha de condução que não pode negligenciar que é a de levar a aconselhada a reviver a fé na graça e na cruz de Cristo.
            Na crise ocorrida em Betânia (Jo. 11), as irmãs de Lazaro mandam dizer a Jesus que seu irmão estava enfermo (v.3). Jesus explica aos discípulos o objetivo da crise (v.4,14,15). Deixou Marta expor sua dúvida e confusão (v.21,22). Implantou nova esperança e certeza (v.23,25,26). Indicou-lhe o caminho da resposta, a Pessoa de Cristo (v.25). Deixou Maria expressar seus sentimentos (v32). Expressou sua própria tristeza (v.33-36). Suportou hostilidades dos presentes (v.37). E aplicou o juízo sobre a morte, mandando Lazaro sair do túmulo (v.43). Depois enfrentou com serenidade a cruz que lhe esperava e ressuscitou. Não é de admirar que o apóstolo Paulo explodisse em êxtase “(...) Tragada foi a morte pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória?” (1Co. 15.54,55) (COLLINS, 1990, e-book).
É possível encontrar em Jesus uma capacidade insuperável de cuidado, cura, libertação e crescimento. Conforme Karin Wondracek, que usa uma linguagem psicanalista, Jesus usou do seu amor para descobrir o que estava escondido e perdido naqueles que se aproximavam dele.
As ações de Jesus consagram-no como aquele que cuida do nosso ser, resgata em nós o que estava perdido, oculto pelas aparências, pelas defesas. Sem pretender igualar um saber com o outro, mas apenas para ilustração, volto à linguagem psicanalítica, e através desta se diria que Jesus desvela o que está no inconsciente. Mas atenção: o cuidado de Jesus não é no sentido de revelar o pecado oculto, não, muito pelo contrário, tem como alvo mostrar o afeto que estava oculto – a capacidade de amar, a sede de ser amado – lembrem Marta e Maria, Zaqueu, a mulher do perfume, a mulher do poço (www.cppc.Org.br).


3          A IGREJA COMO COMUNIDADE TERAPÊUTICA

            Logo que se sucedeu a ascensão de Cristo, aqueles que haviam sido impactados  pela sua obra procuraram se agregar aos Apóstolos. A igreja começava a crescer numericamente, especialmente após o Pentecostes relatada por Lucas em Atos 2.
            A comunidade que estava em formação, ganhou a nomenclatura eklesia do original grego, onde os políticos dessas cidades estados discutiam assuntos jurídicos e políticos, e que era reconhecida como assembléia profana. Paulo em suas cartas identifica a nova comunidade como Eklêsía toû Theoû (At. 20,28; 1Co. 1,1; 10,32; 1Ts. 2,14; 2Ts. 1,4). A Eklêsía tem a partir da formação da nova comunidade um caráter diferente. Ela reunia homens, mulheres e crianças com o objetivo de ouvir a Palavra de Deus, essa era a Igreja de Deus (HACKMANN, 2003, p. 26).
            A nova comunidade mostra o impacto do Espírito de Jesus (Santo). E a sua práxis vai revelar-se no anúncio da Palavra, no temor a Deus, nas orações, na comunhão de bens, na alegria do louvor a Deus e na partilha do alimento. Dessa forma, a igreja dava continuidade à ação de Jesus através dos Apóstolos, e mostrava o poder de Deus nos prodígios e maravilhas (At. 2,41-47), onde se incluía a cura.
            A Igreja reunia através da fé de seus líderes e das ordenanças do seu criador, as aptidões inerentes à preservação da vida tanto social como a saúde integral daqueles que acorriam a ela. Assim a Igreja atual tem necessidade de olhar sua história e rever o quadro em que se posiciona frente aos mandamentos de Cristo ao que se refere tanto à proclamação da Palavra, o ensino e também quanto à práxis vital que inclui o cuidado com a saúde (REVANS, 2002, p. 223)
            A saúde física, psíquica e emocional, sempre foi uma preocupação do ser humano dentro da sua história. No prefácio de seu livro, Abigail Evans descreve os enormes investimentos e os gastos do governo americano na tentativa de solucionar problemas com as enfermidades. As conseqüências disso estão na crescente procura de médicos, charlatões, curandeiros, liturgias religiosas, orações que denota além da preocupação com a saúde, mas também com o aparecimento de novas diagnoses patológicas (REVANS, 2002).


Thomas Carlos Hoch considera também, na apresentação do seu livro, que além da procura pela medicina formal e psicológica, as pessoas passam por um momento em que estão reconhecendo uma insatisfação pelo fato de não conseguirem mais administrar sua vida financeira, familiar e afetiva. A busca da espiritualidade recorrendo ao Transcendente é um fato que mostra a preocupação das pessoas reconhecendo que os problemas sociais estão relacionados não apenas com a saúde física, mas também com a saúde da alma (HOCH e NOÉ, 2003).

3.1 Paradigmas nocivos para a igreja na sua ordem terapêutica.
            A igreja com o transcorrer do tempo passou por várias influências teológicas, mas talvez o grande problema esta no fato de perder o jeito de dar continuidade a um dos mandamentos cruciais que Jesus outorgou aos seus discípulos, a cura (Mt. 10.1). Vemos as ações libertadoras de Jesus descritas em Mateus (9.35) que estava relacionado com a proclamação da Palavra, ensinamento e cura de toda espécie de enfermidade.
            É reconhecido por Itamar Eloi Schlender, que lembrando Steurnagel, afirma como as grandes transformações que tiveram início no final da idade média, decorrentes das descobertas e criações científicas deram novo panorama para a sociedade moderna, e impactaram, sobremodo, a forma da igreja em suas prerrogativas terapêuticas (HOCH; NOÉ, 2003, p.16).
Nesse contexto, também encontramos a reforma protestante e a contra reforma católica. A evolução científica e o conhecimento deram novo rumo à interpretação teológica. O otimismo tomou conta da concepção humana. Os fundamentos onde se fixaram as compreensões eram a fé na razão, fé no progresso tecnológico, fé na ciência substituindo a religião e fé no homem autônomo e auto suficiente (HOCH e NOÉ, 2003, p. 14).
De certa forma, conforme Vilmar Noé, o pensamento iluminista influenciou a igreja. A proclamação da Palavra, e o ensino, se constituíram no alicerce das suas ações eclesiológicas, proporcionando a racionalização da fé, e certa negligência na sua função terapêutica. A falta de desenvolvimento dessa atividade pela igreja abriu espaço para que correntes teológicas surgissem com a pregação de milagres, curas, o exorcismo de espíritos malignos e expulsão de demônios (HOCH; NOÉ, 2003, p.9).


            Além das circunstâncias que provocaram transformações sociais e trouxeram enfraquecimento da fé em Deus, com certa estagnação numérica para igrejas de tradição históricas, a evasão de fiéis para terapias alternativas também se vincula, em grande parte, com a perda da capacidade terapêutica dessas comunidades (HOCH; NOÉ, 2003, p.9).
É necessário estabelecer um consenso de que o evangelho inclui dentro da missão  da igreja, um equilíbrio entre as prerrogativas estabelecidas por meio da vida e obra de Jesus. A cura física nesse ínterim, também se estabelece dentro do contexto de libertação e crescimento. É preciso compreender que o/a crente está submetido à humildade e obediência à Cristo. Ele não deixa de ser um ser livre de limitações e finitude, o que significa estar submisso a boa vontade do Deus soberano e amoroso.
Quando se estabelece um referencial prioritário evangelístico na cura, a igreja foge dos ideais de Cristo e se arroga aproximando-se do sincretismo religioso, que James Farris chama de “religião feiticeira” onde a mágica é usada em contraste com a religião sacerdotal (SATHLER-ROSA, 1999, p.146).

3.2 A inserção da mídia na sociedade e na igreja.
Embora a comunidade eclesial contemporânea, e principalmente as igrejas históricas da reforma tenham dado enfoque maior para o ensino e a proclamação da Palavra, não descartamos que a igreja comunitária preserva, mesmo assim, valores terapêuticos.
Portanto, falar de igreja é considerar que ali existe um ministério onde a ação do Espírito Santo trabalha conjuntamente com e no grupo, de forma sobrenatural no processo curador de abrangência infinita e eterna.
            Mas já descrevemos que se deve examinar dentro do contexto cultural, nos pensamentos tanto filosófico como teológicos, circunstâncias que mudam o paradigma pessoal e coletivo da comunidade. E o nosso objetivo é tentar descrever o desafio que a igreja, que usa a mídia na proclamação da palavra pode estabelecer no cuidado terapêutico.
            A coerência e o bom senso são necessários quando se avaliam o ser humano e o desenvolvimento sociopolítico, cultural e científico. Não se deve entender de forma absoluta, que a ciência é culpada por todos os males que são introduzidos na sociedade, e pelo uso inadequado ou inescrupuloso das suas descobertas e criações. Pelo contrário, o desejo é que a humanidade aproveite isso de modo salutar.
            Porém a adaptação de forma inconsciente (ou não) dos meios que são disponibilizados à sociedade pode trazer morbidez e outras implicações negativas.  Desde a
descoberta do cinema mudo ao mundo virtual, do telégrafo até a comunicação via satélite e emails, as mudanças trouxeram assim como sua velocidade, um sentimento ambíguo que polariza expectativa de futurismo e um sentimento de vazio (CAMPOS E SOUZA, 2003, p. 14).
            Hoje, o que é reproduzido pelas telas da televisão é sinônimo de sucesso imediato. Assim o fascínio pelo espetáculo do teatro foi transferido para salas familiares, salas de espera em consultórios de profissionais liberais, hospitais, enfim é difícil dizer onde não existe um ambiente que não tenha uma televisão ligada, mesmo que você não esteja disposto a isso.
A inovação da comunicação via mídia se estendeu às igrejas. E a ação do Espírito Santo agindo na comunidade, que é a rede de apoio onde se expressa o dom supremo do amor fraterno e terapêutico, tem se diluído pelo isolamento e individualismo que a mídia televisiva, de forma mais notória tem provocado.
Conforme o trabalho de Ramos sobre as teses de Debord, que trata da sociedade transformada pelo impacto do espetáculo, se afirma a forma vazia com que as pessoas vivem. A comunicação via espetáculo das imagens se tornou realidade, que é bem diferente da relação e comunicação face a face, que significa viver singularmente e de forma concreta, em comparação com a representação da vida através do espetáculo das imagens, que se torna a realidade em todos os setores da sociedade, como na política, economia, cultura e também na religião (RAMOS, p. 144).
Talvez a constatação crítica, que representa a maior gravidade dessas circunstâncias é descrito por Ramos como a negação da realidade que provoca os mais diversos transtornos. A alienação de forma generalizada, ou seja, uma separação recíproca, também aparece na religião, que utiliza um instrumento unificador, porém na realidade mostra a separação do representado e a representação, onde no lugar da representação se estabeleceu a religião virtual (RAMOS, p. 145).
O desafio do contemporâneo é viver de forma concreta. O que se nota na descrição de Ramos é o fascínio pelo que é belo e bom na realidade da nova cosmovisão imagética:

 (...) A vida, pintada com as cores do espetáculo, parece mais viva do que nunca. Porém, ao tentar tornar a vida mais viva, pela mediação de recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados, acaba por negar a vida real, uma vez que se torna mais “sem graça” que aquela. Uma vez que a realidade espetacular se constituiu o modelo cósmico da realidade, o espetáculo maquia, falsifica a vida, porque não a considera satisfatória como ela é (RAMOS, p. 145).

Sem sombra de dúvidas, a falsificação da vida e o individualismo se reconhecem pelos desdobramentos das relações. A ética e a moral se encontram cada vez em um número menor de pessoas, grupos, organizações e entidades religiosas. A mídia que sobrevive a custo da sociedade do consumo, ajuda a promover essa realidade.
           
            3.3 Como conciliar, mídia e igreja como comunidade terapêutica.
A igreja manifesta na sua expressão litúrgica e na práxis, os valores do Reino de Deus. A leitura da Bíblia, a busca por uma compreensão que se identifique ao evangelho de Jesus é de suma importância. A mídia reproduziu uma pluralidade de interpretações incoerentes, sendo muitas marginais e excludentes (LIBÂNIO, 2007, p. 278).
Muitos debates que abordam o tema mídia e igreja têm surgido. Entretanto, o que se percebe é que muitos pastores padecem discriminação e abandono, devido o conceito negativo de ser “pequeno”, com alusão à falta de “sucesso”, quando se interpreta a igreja ou o líder religioso fracassado. A atração pelo belo e grandioso numericamente é um fator enganoso, que os ingênuos são levados ao fanatismo manipulador.
Fazendo um paralelo entre a exigência para aqueles que devem seguir o caminho proposto por Jesus, e a nova metodologia proposta pelo discurso midiático, não se nega que os princípios são incompatíveis (RAMOS, 2006, p. 120). O evangelho é o caminho para que o ser humano tenha a graça de ser liberto dos preconceitos quantitativos.
Sua divindade encarnada na simplicidade foi, e tem sido rejeitada pela visão humana que idolatra a aparência.
A compreensão humana que valoriza o sucesso pelo que aparenta ser, e descaracteriza a virtude é esclarecida nas profecias messiânicas de Isaías 53:

(...) Quem creu naquilo que nós anunciamos? (...) para nós ele não tinha beleza alguma; não havia nada em sua aparência que chamasse a nossa atenção ou que nos agradasse. Ele foi desprezado e rejeitado por todos; (...) ele era um homem que conhecia, por experiência, a dor e o sofrimento. Era como alguém que não queremos ver; (...) não demos a menor importância a ele. (...) e nós achávamos que ele estava sendo castigado por Deus, (...)

A igreja como comunidade terapêutica segue o princípio da vivência comunitária que se modela em Jesus, assim ele que rejeitou a lisonja, a riqueza priorizando o dia a dia junto aos pobres e marginalizados, e muitos enfermos que eram proibidos inclusive de entrarem no Templo.
Os métodos de cura aplicados por Jesus e pela igreja do primeiro século estavam alicerçados no contato, como as palavras diretas ao enfermo, toque, imposição das mãos, saliva e barro, orações entre outras (BALDESSIM, 2000, p. 34). Esse conjunto de aplicações mostra que a vida comunitária era uma realidade inconteste.
O modelo de “cura pela fé” utilizada pela igreja midiática, não se descaracteriza completamente, porém essa atividade é questionada quando se tem a intenção de garantir  o suporte financeiro da instituição religiosa. A cura pela fé nem sempre acontece, pois são necessários requisitos sobrenaturais indispensáveis, que fogem da compreensão humana. Por isso, a acusação de falta dessa fé quando ela não acontece, nem sempre é salutar (NICODEMUS, 2011, p. 34).
A garantia da cura pela fé, pode muitas vezes fazer que a pessoa fique buscando a fé enquanto não ocorre a cura, com isso descarta-se um tratamento médico. Outro grave problema é culpar o doente pela falta de fé. Isso pode trazer sentimento de frustração com a religião, além de desacreditar no pastor e em Deus. A pessoa que busca a cura pela fé e não a  consegue,  tem a  possibilidade  de  sofrer  duplamente,  ou  seja,  a enfermidade acumulada com a depressão será pior que a doença inicial (REVANS, 2002, p. 96).
As atividades que sinalizam o tratamento terapêutico numa comunidade cristã, não estão direcionadas apenas para a cura física, mas estão significativamente relacionadas ao desenvolvimento das estruturas emocionais e racionais da pessoa (orgânica, psíquica, social e espiritual). Dessa forma, a pregação da esperança, e a oração que são partes integrantes da construção da fé e espiritualidade, não se alienam da prática comunitária, como é pregada de forma simulada pela mídia religiosa (HOCH; NOÉ, 2003, p. 10).
Nelson Bomilcar considera, que os líderes da igreja dos primeiros séculos onde se encontram os momentos que a cura estava integrada à sua dinâmica, não faziam separação ou priorizavam certas liturgias. Neste período, os escritos mostram que o conhecimento e o amor, a devoção, doutrina, teologia, oração eram uma só coisa. Todos expressavam uma fé pessoal, o amor por Deus. Não havia divórcio entre Teologia e espiritualidade, essas práticas se concretizavam na relação comunitária (BOMILCAR, 2005, p. 17).
Segundo Ramos, a televisão assumiu um poder idolátrico colocando-se no lugar de Deus. Sua comunicação com modelo de espetáculo contagia a pessoa. A televisão atual é o instrumento que supostamente veicula a informação, mas na verdade transformou-se no maior meio de comercialização. Assim ela procura atrair as pessoas pela técnica do espetáculo e entretenimento, para transformá-las em vorazes consumidores (RAMOS, 2005, p. 166).  
Quando o discurso religioso usa a televisão, necessariamente tem que se adaptar à exigência do consumo. Assim o conteúdo da fé e a comunhão com Deus acabam perdendo sua autenticidade passando a ter o preço de mercadoria. A criação da indústria de produtos religiosos e sua comercialização estão atreladas num processo obrigatório, que nivela a fé a bens de consumo (RAMOS, 2005, p. 167).
            Portanto, Ramos resume seu conceito do novo modelo de igreja conectada pela mídia descrevendo que ela possui uma homilética própria (modus operandi), que é a formadora dos conceitos, que se reproduz na metodologia (modus faciendi) e num estilo de vida (modus vivendi) (RAMOS, 2006, p. 120).
            Como a igreja deve conciliar sua missão de proclamar a palavra, ensinar, e trabalhar o processo terapêutico dentro dessa realidade midiática?
            Ramos considera que se não existir a interação humanizadora a partir do uso das redes de máquinas, como a TV, internet, rádio, etc., estas perdem o sentido de serem instrumentos necessários na comunicação do evangelho. O uso dessas ferramentas se torna útil quando se aprende a dominá-las, não se resignando à exposição dos perigos do analfabetismo digital.
            O desenvolvimento intelectual não deve ser privativo, mas contemplar a coletividade para benefício de todos, e a socialização dos problemas devem ser discutidos por todos, e não apenas por uma só pessoa. O processo comunicativo deve ser interativo capacitando a todos intervirem entre si. Nesse processo, não existe um sujeito emissor, mas todos são intersujeitos comunicadores (RAMOS, 2005, p. 171,172).

            3.4 Cura, libertação e o paradoxo de perder a vida.
            O imaginário daqueles que temem a Deus sempre é questionador, e se pergunta desafiadoramente, se tudo está perdido. Elias pensava do mesmo modo, mesmo depois de tantos feitos extraordinários manifestados na sua experiência de obediência (2Re. 19. 9,10). O Apóstolo Paulo exclama, se referindo a alguém que luta com seus pensamentos “(...) vejo nos membros do meu corpo, outra lei, que guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado (...). Quem me livrará (...) (Rm. 7.23,24).
            Todos estes aprenderam uma coisa, viver reconhecendo os limites do ser humano, sendo grato pela maior dádiva que em suma é a própria vida, e seguindo princípios que são revelados pela obediência a Deus.
            Porém não existe uma afirmação tão simples e paradoxal para que haja cura, libertação e crescimento como a que fez Jesus, quando diz “Pois quem quiser salvar a sua vida perde-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará (Lc. 9.24).   Manifestar cura significa revelar a mortificação da natureza humana através da liturgia da graça. É levar o ser humano a superação dos sintomas maléficos do egoísmo.
               Sintomas que são adquiridos no dia a dia, pelo conceito de ganhar e nunca perder. Os anos 70 consagraram pessoas como Gerson, o tri campeão mundial de futebol, que também deixou sua marca de inveterado dependente químico, pelo famoso comercial na televisão “Gosto de levar vantagem em tudo, leve vantagem você também”. Isso ficou sendo veiculado nas nossas casas todos os dias, por muito tempo.
            As pessoas não conseguiam entender certas mensagens e ensinos de Jesus, elas iam de encontro com as concepções humanas. A contracultura que Jesus ensinava tem base na relação do ser humano com Deus, com os bens materiais e o próximo.
            Os projetos humanos sem a orientação divina, conforme a afirmação de Jesus sempre gerará negação à vida. A recomendação de negar a si mesmo tem a significativa aplicação de desapego aos valores que não perduram, como o acúmulo de bens, que geralmente consiste em opressão humana. Enquanto os eternos se referem à libertação do amor a eles.
            O querer ganhar é ter medo de perder. Essa abordagem nas pesquisas psiquiátricas, explicam que uma das enfermidades que mais assola o ser humano é a ansiedade. Ela afeta a pessoa que tem uma vida com sentimentos de culpa ou aflições na consciência, por não ter vivido conforme os padrões morais esperado (GOBBARD, 2007, p. 192).
            A igreja deve apresentar a verdade confessional da cruz, a morte do “eu” exacerbado, e a prática do amor, interessando-se pela saúde integral da pessoa, onde o fundamento é a aceitação e a defesa da vida. Isso só é verdade quando ela enxerga o padecimento da pessoa, ou de grupos e se interessa para minorar esses sofrimentos.

            3.5 A graça se manifesta na ação libertadora da igreja.
            O mundo sofre atualmente com uma tremenda extensão de males e enfermidades. Os latino americanos e os africanos sofrem com a miséria, desnutrição e doenças como o HIV/AIDS*. A igreja é uma missionária que na proclamação do evangelho busca integrar a pessoa na sociedade, para que sejam reparadas as feridas abertas e a sobrecarga de males que o mundo tem praticado contra elas. A graça é ser solidário na luta contra as doenças, a desnutrição, a fome, e outras calamidades (GEORGE, 2006, p. 115).
            Compreender a graça é reconhecer que o mal atingiu todo o ser humano, e só por intermédio da graça que acontece a reconciliação “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef. 2. 8, 9).
            Reinterpretar o sentido da graça libertadora por meio de Cristo, da escravidão do mal e do pecado é essencial para a saúde da igreja comunitária. Uma interpretação restrita e nociva é a doutrina da reconciliação, somente com Deus, de ter uma boa relação com Deus, que pode ser motivo de justificação pessoal. É necessário que a reconciliação e a justificação por meio da graça atinjam a relação com Deus e seres humanos entre si (BATISTA, 2005, p. 64).
            Olhando a graça como ato de amor e reconciliação, vemos a cruz de Jesus e seu sofrimento em favor dos seres humanos incapazes de restauração por eles próprios. O serviço em que o Deus tri/uno participa para a salvação, aponta para a sua Igreja em forma de serviço salvífico onde o cuidado, cura e libertação devem ser experimentadas em bondade e justiça como resposta à graça recebida (Mt. 9.13; 12.17; Rm. 5.17b).
           
            3.6 Considerações finais
            A igreja necessita olhar para o ministério do cuidado e aconselhamento pastoral na  contemporaneidade, onde a comunicação virtual se apresenta como formadora de novos paradigmas. E a igreja tem criado um novo discurso influenciado pela mídia de mercado. A globalização, o capitalismo, a evolução das ciências não tem reproduzido sinais tão saudáveis, e a igreja tem o grande desafio de sinalizar a saúde que provém da prática dos valores do Reino de Deus, com a sabedoria oriunda do Espírito de Deus, conforme se exorta por Paulo à igreja de Éfeso (Ef. 3. 10).
            A imersão da sociedade na informação virtual possibilitou a disseminação de noticiários traumáticos e a violência, que abalam a sua estrutura emocional da sociedade. A dignidade do ser humano tem se perdido devido aos valores que se adequam ao capitalismo, o mercado exige produção, e aquele que não produz é descartado, e o medo que se arquiva no inconsciente faz crescer anomalias psicológicas.
            A igreja precisa de pastores que se dediquem ao serviço de Deus junto à comunidade nas causas de maior importância. Desvelar o novo quadro social, a fim de através do ministério do cuidado e aconselhamento pastoral tratar de forma sábia, esses novos sintomas perniciosos que o cenário constrói.
            Esse serviço que requer vocação empática da pastora conselheira, precisa de um maior desenvolvimento em tempos em que o discurso religioso tem um vínculo mercadológico. A atenção de empatia deve superar qualquer interesse que não seja o bem daquele que sofre. As pessoas querem que seus problemas tenham uma solução. A pastora conselheira deve ouvi-los, e o objetivo de ouvir é às vezes, simplesmente inserir um sentido para o problema em questão.
            O ministério do aconselhamento pastoral e cuidado integra os princípios do pastor bíblico que cuida e orienta suas ovelhas. O seu exercício deve permear todo discurso religioso cristão.
            Entretanto, a igreja tem colocado uma nova proposta de evangelização. Hoje a mídia televisiva tem sido privilegiada como forma dessa missão. Porém, a relação do amor a Deus com sua práxis libertadora na relação humana, tem se prejudicado pela necessidade de produzir uma teologia que satisfaça a ideologia consumista.
            A evolução tecnológica alcança todas as áreas da sociedade, e a pessoa não consegue sobreviver no mundo atual sem esses recursos. Reconhecendo que a escravização à tecnologia produz alienação, a comunicação é desfeita do caráter fiel, a igreja tem o desafio de trabalhar nesse contexto. Como se apropriar ou não dos recursos concedidos pelo sistema midiático?
            Com o intuito de conhecer a igreja, como comunidade que manifesta a ação de Deus na sua função de curar, libertar e dar crescimento, é necessário que se manifeste nela a abnegação aos interesses econômicos, ideológicos, institucionais pela dignidade da vida humana e de toda criação.
            Viver a graça libertadora de Cristo e semear a bondade em forma de serviço comunitário, em prol do amor a Deus e ao próximo é o desafio constante e necessário, a fim de experimentar a salvação agora.
            Assim não esgotamos o assunto em que o ministério do cuidado e aconselhamento pastoral se torna importante pelos traumas sociais, e crítico diante de uma nova ideologia social e eclesiástica, que não tem contribuído com a ética, a moral e a dignidade humana.



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